quarta-feira, 6 de abril de 2011

Doses Sonoras



Recentemente no Brasil, um crescente e controverso mercado vem chamando a atenção de jovens, pais, educadores e até do ministério público: a venda de drogas digitais.

As drogas digitais ou i-doses são arquivos de MP3 feitos especialmente para induzir estados alterados em quem ouvir, dando supostamente sensações parecidas com as do consumo de drogas como maconha e ópio.


A idéia de usar sons como droga surgiu em 2001 com John Ashton, um programador de áudio nova-iorquino de 31 anos. Sua primeira invenção foi a maconha, lançada em 2005.

 O princípio da droga digital é a técnica binaural beats (batidas binaurais) , descrita pelo físico alemão Heinrich Dove em 1839. Segundo o cientista, se frequências distintas são reproduzidas em cada ouvido, o cérebro produz um terceiro sinal, correspondente à diferença entre os sons originais. A nova frequência teria o poder de alterar o estado de consciência do usuário.


Nas linhas abaixo, reproduzo  a chamada do I-Doser Mp3, blog especializado em fornecer as drogas digitais em forma de "doses sonoras" que variam de 10 à 45 minutos de duração.

(Lembramos a todos que o blog Música & Saúde não apoia o uso de qualquer tipo de droga, seja real ou virtual. Apenas se propõe a discutir o assunto com seus leitores.)

Transcrição da frase inicial do blog I-Doser MP3:
“Já teve vontade de experimentar drogas, mas não teve coragem por medo de viciar ou de ser "careta"? Então chegou o modo mais seguro para que você possa sentir tais sensações que as drogas reais provocam ao usuário! Estou falando do I-doser, que é um programa de computador que emite doses de ondas sonoras para interferir nas ondas cerebrais da "vítima"..rsrs! Elas simulam efeitos físicos e mentais semelhantes às drogas recreativas, como heroína, maconha, cocaína, etc. Também a doses que simulam sensações de remédio prescrito como o famoso Viagra e até de esteróides como a Victory! Mas vou logo avisando que os efeitos podem ser sentidos incialmente, ou por um certo tempo de uso! Pra quem está começando aconselho a dose Quick Happy!”

As experiências musicais oferecidas pela internet  deixam pelo menos duas questões:
1  A audição pode mesmo gerar estados alterados de consciência?
2 Elas podem ser de alguma forma, prejudiciais?


Musicoterapia e Experiências sonoras 

Helen Bonny

A musicoterapeuta Helen Bonny,  no fim da década de 60, deu início a  estudos nos quais experiências musicais em conjunto com doses de LSD levavam a estados alterados de consciência, induzindo o indivíduo a vivenciar aumento da emoção, suspensão do superego e experiências de criatividade.
Helen porém, percebeu que  o LSD era dispensável, pois "só a música,  quando escolhida com conhecimento e discriminação, podia produzir um estado alterado da mente ”. 

No método desenvolvido por Helen (GIM),  geralmente são experimentados três níveis de experiência com a música: o prelúdio, a ponte – ascensão ou descida a estados mais profundos e o centro ou mensagem da sessão. No final da sessão, o paciente sai do estado alterado de consciência e reflete sobre o que aconteceu, juntamente com o musicoterapeuta.

Portanto, de acordo com Bonny, a realização de experiências musicais que levam a estados mentais alterados,  devem ser feitos com conhecimento e discriminação, acompanhado de um musicoterapeuta em um processo criterioso.  A preocupação ética da aplicação do método Bonny, sob o risco de gerar danos ao indivíduo caso seja aplicado erroneamente, garante que tal técnica seja aplicada somente por profissionais formados no método, evitando o uso indiscriminado e equivocado das audições propostas. 

Apesar das diferenças existentes nos dois casos: O método Bonny utiliza programas musicais baseados principalmente na música erudita, enquanto os I-doser utilizam-se nas batidas binaurais, podemos pensar que a audição indiscriminada de experiências sonoras que induzem a alteração de consciência, pode sim oferecer riscos , se não fisiológicos, psicológicos e mentais.

Entretanto, por se tratar de um tema relativamente recente, ainda carece de maiores pesquisas. 

E você, o que acha? Deixe sua opinião a respeito!



Saiba mais:
- Sobre o modelo Helen Bonny: http://www.ami-bonnymethod.org/index.asp

- Sobre o I-doser: http://pt.wikipedia.org/wiki/I-doser

- Blog I-Doser MP3: http://i-doserbr.blogspot.com/



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Atividades Musicais - Altura


              

Propriedades do som

Os sons são causados pelas vibrações. Tudo o que vibra gera ondas sonoras que se espalham pelo ar, em todas as direções e simultaneamente. Quando elas chegam ao nosso ouvido, entram em contato com a membrana do tímpano, fazendo com que ele também vibre, e transmita ao cérebro várias mensagens que serão identificadas como tipos diferentes de sons.


As ondas sonoras são captadas e identificadas pelo sistema nervoso, classificando-as em quatro características fundamentais. São elas:
- altura
- intensidade
- duração 
- timbre

Na postagem de hoje, trataremos da propriedade Altura.


Altura


A altura de uma nota depende do velocidade da vibração resultante do som emitido. A essa velocidade, se dá o nome de freqüência, e é medida em Hertz (ciclos por segundo).

Quanto mais alta for a freqüência, mas aguda será a nota. Os sons mais graves que conseguimos perceber estão na faixa dos 20 Hz (vibrações por segundo), ou seja, mais baixo (grave) que a nota mais à esquerda de um piano. Já o limite agudo percebido pelo ouvido humano é de aproximadamente 20.000 Hz.



Abaixo,  exemplos de cinco atividades utilizando a propriedade altura. As atividades podem ser modificadas e adaptadas de acordo com o objetivo e público. 
Embora pensadas para o público infantil, as atividades sugeridas podem ser realizadas para qualquer faixa etária, devendo o profissional realizar as adaptações necessárias.



Atividade 1 :
Com uma flauta de embolo fazer movimentos de sobe e desce, sendo que nos movimentos ascendentes a criança deverá levantar - se, e nos descendentes abaixar-se, no som mais grave da flauta, a criança permanecerá abaixada, enquanto que no som mais agudo na ponta dos pés.
Variação: Movimentar apenas braços e cabeça.
Objetivos Específicos: Trabalhar a corporalidade, a atenção, e a percepção auditiva.

Atividade 2 :
Tocar no teclado notas graves, médias e agudas, pedindo que no  primeiro momento apenas escutem. Ao ouvir as notas graves, as crianças andam agachadas, nas notas médias andam normalmente e nas notas agudas andam na ponta dos pés.
Variação: Imitar animais - graves: andar como elefante, médios: andar como macaco e agudos: passarinho.
Objetivos Específicos: Trabalhar a marcha, espacialidade  e expressão corporal.

Atividade 3:
Distribuir cartolinas e tintas. Em cada cartolina, três ou quatro crianças escolherão duas cores, uma escura e outra clara.Tocar no teclado sons graves e agudos. Ao ouvir os sons graves, as crianças devem pintar, de forma livre com a cor escura. E nos sons agudos, pintar com a cor clara.
Objetivos Específicos: Estimular a criatividade, proporcionar a sociabilização e  respeito ao espaço do outro.

Atividade 4 :
Através de ilustrações gráficas ou fotos pedir as crianças que reproduzam e identifiquem os sons graves e agudos.
Exemplos de figuras: passarinho e leão, bebê e adulto, gráficos que representem ondas sonoras.., etc.
Objetivos Específicos: Estimulação  visual e reconhecimento de fotos e figuras, criatividade ao imitar os sons das figuras.

Atividade 5:
Usar um bambolê e dois instrumentos com alturas diferentes (ex. tambor - grave  e triângulo - agudo). Ao som do triângulo, correr pela sala, ao som do tambor, entrar na toca “bambolê”.
Objetivos Específicos: Estimular a atenção, a movimentação corporal e a percepção auditiva.
Obs: No lugar do bambolê, pode –se fazer círculos no chão com um giz.


As atividades acima são apenas sugestões, servindo de idéias para muitas outras.
Na próxima postagem, veja exemplos de atividades com a propriedade Intensidade.

Bom trabalho!


Referências:
http://luisstelzer.sites.uol.com.br/som.html

quarta-feira, 30 de março de 2011

Inspirados por Bach




"Um herege talvez se convertesse ouvindo Bach, porque Bach é Bach, como disse Beethoven, e eu vos diria como Deus é Deus" (BERLIOZ).


Neste mês de março comemora-se o aniversário de um dos maiores gênios da música: Johann Sebastian Bach.

Nascido em março de 1685 na Alemanha, Bach é considerado o ultimo barroco, mas apesar de representar o esgotamento de um período, Bach consegue ser original e único. Suas composições atingiram um grau tão elevado de sofisticação, técnica e beleza, que inspiraram todos àqueles que vieram após ele, e apesar de passado mais de 300 anos de sua morte, continuam  fontes de inspiração para a música atual,  da música erudita ao rock e jazz.

Bach produziu, ao longo de sua vida (faleceu em 1750 aos 65 anos) um vasto repertório, de peças solo para instrumentos, como cravo e alaúde, até grandes oratórios e missas. É difícil contabilizar a extensão exata de sua obra, mas estima-se mais de mil composições.


No post de hoje, falaremos acerca de um projeto realizado em 1997 com a participação do violoncelista Yo Yo Ma, inspirado nas belíssimas suítes para violoncelo de Bach.

Nesse projeto, cada suíte inspirou  uma produção artística original. O resultado do projeto gerou seis filmes de aproximadamente 1 hora de duração, cada um dirigido por um diretor diferente.

Confira uma pequena sinopse de cada filme:

  • “O Jardim Musical” - Dirigido por Kevin McMahon, Yo Yo Ma e a paisagista Julie Moir Messervy “viajam” entre Boston e Toronto tentando criar um jardim inspirado na suíte no. 1; 
  • “O Som dos Cárceres” - Direção de François Girard. Calcado na suíte no. 2, recursos de tecnologia virtual colocam Ma tocando num dos cárceres imaginados pelo arquiteto italiano Giambattista Piranesi, contemporâneo de Bach; 
  • “Rolando escada abaixo”- Dirigido por Barbara Willis Sweete , este filme registra o longo ano de trabalho do violoncelista Yo-Yo Ma com o coreógrafo Mark Morris e os 14 membros do Mark Morris Dance Group, que culmina numa performance espetacular, concebida especialmente para a Suíte n° 3; 
  • “Sarabanda”- do diretor Atom Egoyan. Personagens e elementos distintos se misturam nesta criação ficcional de Atom para dramatizar a 'Suíte n° 4;
  • “Lutando por Esperança”- dirigido por Niv Fichmano, ator de kabuki Tamasaburo Bando dança a quinta suíte numa interpretação magistral; 
  • “Seis Gestos”- o casal premiado de patinação no gelo J. Torvill e D. Dean dança a sexta suíte sob a direção de Patricia Rozema.

Assista pequenos trechos de 5 dos seis  filmes produzidos:

O Jardim Musical


O Som dos Cárceres


Rolando Escada Abaixo


Lutando por Esperança


Seis Gestos




Recomendo a todos a audição  das suítes completas. São realmente belíssimas!

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Música em Musicoterapia




A concepção de música em musicoterapia aparece muitas vezes distorcida e estereotipada, confundida com processos educacionais, lúdicos e recreativos.

 Apesar de a música ser usada com objetivos terapêuticos por diversos profissionais, como psicólogos, pedagogos, terapeutas ocupacionais e etc., a musicoterapia é algo bem mais amplo e complexo. Seu ponto de partida é o som e/ou a música, necessitando portanto, de um setting específico - o Setting Musicoterápico, do qual faz parte o musicoterapeuta com formação específica na área. Este, para interagir com o paciente, utiliza de instrumental (teórico e prático) apropriado.

A música possui suas teorias que não são as mesmas da Musicoterapia: Música e Musicoterapia pertencem a domínios diferentes que se cruzam e interconectam. 

Alguns instrumentos usados no setting
No setting musicoterapêutico, a música encontra-se em território aberto e flexível, entre a significação e o sentido. Encontrar sempre uma significação para a música nem sempre é possível. Partindo da significação chegamos na linguagem e seus signos de comunicação. Ora, se nem sempre há uma significação não poderíamos conceber a música sempre como uma linguagem, já que ela não se encontra presa a um regime significante de signos. 


Devido às características de flexibilidade, de instabilidade e falibilidade; nem sempre significando ou comunicando, podendo ou não agregar sentidos, despertando ou não emoções, de que forma a música é utilizada como terapia?

Pode-se, em primeiro lugar, ressaltar a importância da música enquanto meio de transpor as possíveis barreiras construídas pelo consciente e pela linguagem verbal. A "máquina" musical, através de suas dinâmicas, pode vir a funcionar como facilitadora, possibilitando a criação de diversas dinâmicas através das forças existentes dentro da música, criando relações entre “música-tempo, música-movimento, música-intensidade, música-força, música-estados diferenciados, música-afeto, música-vida”.

 Isto se constitui num fator essencial  para a prática musicoterapêutica no que tange a construção e desconstrução de espaços e relações dentro do setting, possibilitando a compreensão, expansão e qualidade das relações.


Referência

SÁ, Leomara Craveiro. A teia do tempo e o autista – Música e Musicoterapia. “Traçando uma escapada”, Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2003.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Jogos Musicais


A música é considerada fator importante na formação humana, facilitando a comunicação, expressão e inter-relação entre os processos afetivos, cognitivos e fisiológicos.
Segundo Hans-Joachim Koellreutter (1998), educador musical e conceituado compositor alemão naturalizado brasileiro, a música é um meio de desenvolver faculdades para o exercício de qualquer atividade. De acordo com suas palavras, a música trabalha a concentração, a autodisciplina, a capacidade analítica, o desembaraço, a autoconfiança, a criatividade, o senso crítico, a memória, a sensibilidade e os valores qualitativos.

Os Jogos

O uso de jogos musicais vão além do aprendizado em si e envolvem aspectos importantes para o desenvolvimento humano.

Jogar é reagir a uma determinada situação, nela se empenhando totalmente, é ao mesmo tempo, pensar, sentir, agir. É exatamente essa capacidade de aliar mecanismos intelectuais, emocionais e motores o que caracteriza o jogo e o torna um importante objeto de estímulo cognitivo, mas também, de prazer e diversão.


Nas figuras abaixo, disponibilizo cartelas com um jogo simples: Jogo da memória
O professor deve aproveitar as cartelas  para ampliar os conhecimentos dos alunos sobre os instrumentos, por exemplo:
  • Ensinar a classificação dos instrumentos. Nas cartelas disponibilizadas, veremos apenas instrumentos de percussão, mas o professor pode classificá-las (ex. idiofones, membrafones);
  • Trabalhar a escuta, ouvindo o som de cada instrumento antes ou depois de jogar;
  • Mostrar músicas que contenham os instrumentos das cartelas.

Embora o uso dessas atividades sejam voltados para a educação musical, em terapia os jogos também podem ser aplicados, desde que dentro de um processo terapêutico estruturado e com objetivos claros, e não meramente para preencher o tempo e entreter o cliente/paciente.









Dê dois cliques na imagem e imprima. Depois recorte e comece a jogar!
Para que as cartas tenham mais durabilidade, cole em uma cartolina e passe fita adesiva ou papel contact transparente.
Se quiser, faça download das cartelas aqui.

Bom jogo!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Musicoterapia e Idosos Institucionalizados




Vivemos atualmente uma realidade almejada pela grande maioria das pessoas:  vida longa.

 A conquista da longevidade é reflexo dos avanços da medicina, da melhoria da qualidade de vida e queda das taxas de mortalidade e fecundidade. Assim, as estatísticas prevêem em um futuro próximo, uma relativa diminuição da população jovem e aumento da longevidade, contribuindo para um crescente aumento da população idosa.

Porém, com o ritmo acelerado de tal fenômeno, a sociedade ainda não encontra-se satisfatoriamente preparada.
A começar pelo núcleo familiar. O estatuto do idoso visa a  "priorização do atendimento do idoso por sua própria família, em detrimento do atendimento asilar, exceto dos que não a possuam ou careçam de condições de manutenção da própria sobrevivência (Lei 10.741, 10/2003).

 Portanto, segundo o estatuto, o idoso deve ser atendido por sua própria família, e a institucionalização evitada na medida do possível. Muitas vezes, porém, as famílias não dispõem de condições suficientes para disponibilizar uma atenção efetiva e satisfatória, ou o histórico familiar não proporcionou a criação de laços afetivos fortes que justifiquem ao indivíduo assumir o cuidado de seu parente idoso, ou ainda, o núcleo familiar é inexistente.

O asilamento do idoso, embora cada vez mais frequente, ainda é visto com muitas ressalvas. Imagina-se um lugar deprimente, onde pessoas são abandonadas e esquecidas. Apesar dessa ser uma infeliz realidade em muitas instituições pelo Brasil, esse estereótipo não deve ser generalizado e tomado como realidade. As boas instituições (e claro, que podem contar com recursos adequados) contam com equipes preparadas e ambientes adaptados.

A musicoterapia na instituição

Vemos abaixo, um texto retirado do site do Grupo Vida Brasil, uma instituição civil sem fins lucrativos que tem como missão “promover a defesa dos direitos e o exercício da cidadania do idoso, valorizando o envelhecimento e a qualidade de vida”. Fundado em 1997, o Grupo Vida presta serviços gratuitos às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. Localizada em Barueri, SP, a entidade tem atuação nacional.

Música e alegria para os idosos no atendimento de Musicoterapia


Atendimento de musicoterapia realizado pela musicoterapeuta Flávia Nogueira


"Os idosos moradores da unidade Residência do Grupo Vida – Brasil agora também participam de atividades de Musicoterapia.

Desenvolvido por uma musicoterapeuta, o novo projeto oferece atendimentos em grupo e em duplas, utilizando instrumentos como pandeiro, afoxé, chocalhos, violão, cítara, bongô, cuíca e kalimba, e músicas e canções sugeridas pelos próprios idosos. O atendimento visa favorecer a exteriorização das potencialidades, proporcionar a expressão de emoções e promover o desenvolvimento da criatividade, ampliando perspectivas de vida através do fortalecimento da autoestima e das conexões cerebrais. Por meio da música, são estimulados os sentidos (audição e tato) e a linguagem, além de evocar memórias e histórias dos participantes.

O grupo de Musicoterapia está tão interessado que já ensaia apresentações para animar os eventos e festas da Residência."


A instituição não precisa ser um local de tristeza e melancolia. Os  idosos do Grupo Vida provam que morar em uma instituição pode ser uma experiência muito rica,  de trocas, amizades, aprendizados e projetos para o futuro. A instituição não é o fim, mas uma  porta que se abre com novas oportunidades.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Dom Musical

Mozart, considerado o maior gênio da música


Em nossa cultura remota, é comum comparar o cérebro humano com uma máquina. Assim, fica a cargo da complexa máquina neural o processamento lógico e racional. 

Por outro lado, questões subjetivas como emoção e criatividade ficam armazenadas (no imaginário das pessoas) em um lugar desconhecido, reservado a pessoas especiais possuidoras de um “dom” exclusivo. 

Predomina no senso comum a visão de que o artista é um ser que foi escolhido por uma entidade divina para receber um dom especial, que o distingue do restante dos seres humanos. Idéias como destino, talento inato, predestinação, ligadas a teorias religiosas e à ideologia veiculada pelos meios de comunicação em massa, contribuem para formar nas pessoas a concepção de que um músico, um pintor, um ator já nasceram para realizar aquela atividade e são pessoas “únicas” e “especiais”. 

Assim, acaba-se valorizando o artista e colocando-o em uma posição superior aos demais indivíduos, por realizar atividades tecnicamente difíceis, que proporcionam raro prazer estético ao espectador. Ao considerar execução artística possível somente por alguns “escolhidos”, termina-se, sob outro ângulo, por deslocar o músico, o pintor, o ator do mercado de trabalho “comum”, composto pelas profissões tradicionais, o que gera certa desvalorização do fazer artístico, identificando-o como uma atividade mais recreativa, pouco séria, que exige pouco esforço intelectual de seu praticante, que já teria nascido com habilidades inatas para aquela execução. Tal idéia neutraliza a realidade da formação artística, com as incontáveis horas de estudo e pesquisa às quais este profissional se sujeita. 

Ser músico, nesta visão, muitas vezes não acarreta em reconhecimento profissional. Ainda hoje vejo muitos pais que não aceitam com bom grado quando seus filhos escolhem serem Músicos, em detrimento a outras profissões “tradicionais”. 


A Ideologia do Dom 

A concepção de que pessoas nascem com "talentos" especiais é antiga. O filósofo Platão prega o inatismo, ou seja, as pessoas possuem "dons" inatos:  "há, diremos nós, mulheres que são naturalmente aptas para a medicina e para a música e outras que não o são" (PLATÃO, A REPÚBLICA).
A vinculação da idéia de que a habilidade musical possui um fator genético, prevendo que certos indivíduos nascem com habilidades especiais,  não possui comprovação científica, embora pesquisas sobre música e cérebro,  procuram identificar um gene musical, porém, ainda são inconclusivas.

Ao longo da história, vimos nascerem muitos autores e intérpretes geniais, tais como Mozart, que começou a compor aos 5 anos de idade, e intérpretes fora do comum, como a pequena japonesa Aimi Kobayashi (ver vídeo abaixo). Porém, afirmar a existência do dom, ou se tem ou não se tem, pode limitar e impedir que muitas pessoas possam usufruir de uma carreira artística, ou mesmo de simplesmente aprender um instrumento. Há pessoas que nem sequer tentam aprender música pois acreditam não possuir "Dom".

Em 2008 foi realizada uma pesquisa que analisou a trajetória de  oito músicos brasileiros de destaque: Almeida Prado, Carlos Gomes, Chico Buarque, João Bosco, Magdalena Tagliaferro, Milton Nascimento, Tom Jobim e Villa-Lobos, com o objetivo de comprovar ou refutar a concepção do dom musical inato.

A pesquisa concluiu que o ambiente cultural familiar é decisivo na  escolha e desempenho das carreiras artísticas bem sucedidas. Em algum momento, a música foi inserida no ambiente desses futuros músicos, chamando suas atenções e impulsionando suas carreiras. 

"As reflexões e análises efetuadas no trabalho contribuíram para um entendimento objetivo das condições culturais que dão impulso às carreiras artísticas de músicos populares e eruditos, descartando as hipóteses postuladas pela ideologia do dom e por possíveis teorias que prevejam genes de “predisposição” à música.
Assim, pôde ser notado o fato de que o ambiente cultural influi decisivamente na formação do indivíduo, que, ao ouvir música via discos, rádio ou por meio da interpretação das pessoas que compõem o círculo familiar (pais, irmãos, tios, babás, etc.), é inserido no universo musical, desenvolvendo sua cognição voltada à compreensão do fenômeno artístico, que pode ser, futuramente, tomado como linha diretriz de sua vida." (Parágrafos finais da pesquisa)

Portanto, a questão do dom musical ainda permanece aberta. De um lado a falta de fundamentação científica que comprove sua existência e pesquisas conclusivas que refutam o inatismo. Por outro lado, eventualmente nos deparamos com indivíduos dotados de habilidades tão fora do comum que só podemos chamá-los de gênios.

Veja a pianista japonesa Aimi Kobayashi aos 4 anos de idade:



E você caro leitor, o que pensa sobre o  Dom musical? Deixe sua opinião!



Referências

AMATO, Rita de Cássia Fucci. Capital Cultural versus Dom Inato: questionando sociologicamente a trajetória musical de compositores e intérpretes brasileiros. Opus, Goiânia, v. 14, n. 1, p. 79-97, jun. 2008.








quarta-feira, 2 de março de 2011

Idoso e o Carnaval - Tempo de relembrar as antigas canções




É tempo de carnaval, e nesse período, as antigas canções, especialmente as Marchinhas de Carnaval, ressurgem e são cantadas nas festas, bailes e matinês por pessoas de todas as idades. Mas são aqueles que vivenciaram a época das marchinhas, os idosos, que as cantam com um significado especial. Seja cantando ou apenas ouvindo, eles não apenas se divertem, mas relembram a juventude e o vigor de um tempo que não volta mais.


A natureza dinâmica da Música

A música possui a capacidade de transcender o tempo, ultrapassa décadas e séculos, assim como as diferentes culturas e gerações inteiras. Onde quer que aja um povo, uma cultura, a música está presente,  nos rituais de passagem desde os de fecundidade e nascimento, aos rituais de cura e morte (Wisnik, 1989).

Nunca houve nem haverá um povo sem música. Refletir sobre o que é e o que significa a música, sua influência no ser humano é fato antigo, ao mesmo tempo atual e necessário para quem decide trabalhar nessa área.

No processo de envelhecimento, a música oferece sentido aos momentos e às épocas, promovendo a reflexão dos sentimentos  e sonorizando as realidades.

A musicoterapia na terceira idade, estimula, através do prazer de cantar, tocar um instrumento musical, improvisar, criar e recriar, o redescobrir das canções que fizeram parte dessa  longa jornada chamada vida.

Relembrar o passado, porém, não deve significar apenas vivenciar sentimentos de saudosismo e pesar. Embora muitos idosos apresentem uma fala melancólica, o musicoterapeuta utiliza-se da música em seu aspecto dinâmico. A música não é estática e presa a uma determinada época, antes, ela apresenta em sua natureza, a capacidade de movimento e renovação.

Assista um vídeo do Trio Irakitan  cantando "Touradas em Madri", Marchinha de 1938 (participação de Grande Otelo):



Não há como modificar o tempo, nem modificar o passado. Pode-se, porém, reorganizar o presente, fazer com que acontecimentos vividos sejam ressignificados e, assim, impulsionar ações futuras.
Da mesma maneira, não há como voltar no tempo e vivenciar uma situação novamente. Na música, como na vida, sempre existe a possibilidade da repetição, da releitura, de um novo arranjo. (NOGUEIRA E FLORENCIO, 2010)


Baixe aqui dezenas de Marchinhas de Carnaval.



Referências: 

NOGUEIRA, Flávia B. e FLORENCIO, Roberta S. B. Morte e Espiritualidade na Velhice. Anais do X Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia. Salvador, 2010. 


SOUZA, Márcia Godinho. Musicoterapia e a clínica do envelhecimento. In: Freitas V, et al. Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. 


WISNIK, José Miguel. O Som e o Sentido. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. 
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