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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Quando a Música faz Mal



Quando se fala dos efeitos da música sobre as pessoas, normalmente se trata dos benefícios, seja para o aprendizado, estímulo cerebral,  diminuição do estresse, e tantos mais.

Porém pouco se fala dos malefícios, ou seja, dos efeitos nocivos que a música pode provocar nas pessoas.

Hoje falaremos de alguns casos em que a música faz mal à saúde, seja na saúde física ou mental, e deve ser evitada. Falaremos também de alguns mitos sobre os efeitos da música, baseando-se em pesquisas científicas recentes.

A overdose musical

A audição demasiada, especialmente pelo uso constante do fone de ouvido, tem preocupado organizações da saúde em todo o mundo.

Vemos na população, especialmente no meio jovem, a audição ininterrupta de música por várias horas. Sabe-se que a audição musical estimula várias áreas cerebrais, o que pode ser tomado como um ponto positivo, já que este estímulo mantém o cérebro em atividade saudável. O problema reside no fato que, embora tal estímulo seja positivo, em demasia pode sobrecarregar o sistema auditivo e as atividades neurais.

 Não que nosso cérebro seja limitado, mas é necessário momentos de descanso, para que os processamentos das diversas atividades requeridas por ele ocorram adequadamente. Ao ouvir música constantemente, o cérebro se mantém em atividade complexa, e isso pode sim ser prejudicial, pois gera cansaço, e após um longo dia de audições, a pessoa pode encontrar dificuldade de concentração, para dormir e relaxar. 

Este efeito nocivo se agrava consideravelmente quando a audição é feita através de fones de ouvido (mp3, ipods), pois estes aparelhos têm um sistema que limita a fuga do som, por isso, a intensidade que atinge o ouvido interno é muito maior.

Segundo alguns médicos, o uso e abuso de MP3 faz com que os jovens tenham um envelhecimento da audição igual a uma pessoa com 60 anos.

Um relatório encomendado pela Comissão Européia alerta que quem ouvir música acima dos 80 decibéis, durante uma hora, todos os dias, tem uma grande probabilidade de ficar surdo após cinco anos. Se a audição de uma hora diária é capaz de todo esse “estrago”, imagine a audição de horas, como é bem comum.

  Earworms e Brainworms 

O neurologista americano Oliver Sacks em seu  livro “Alucinações Musicais”,  relata vários casos que demonstra os efeitos da música no cérebro humano. Dentre eles, há vários em que os efeitos foram considerados nocivos. 

Entre os casos citados, há os chamados Earworms (vermes de ouvido) ou Brainworms (vermes de cérebro). São casos que podem soar comuns a muitas pessoas, porém, são considerados nocivos e até patológicos quando ultrapassam um nível normal.

Os vermes de ouvido/cérebro são aqueles trechos de música que ficam em nossa mente por horas, até dias a fio. Podem ser desde músicas que gostamos até àquelas que abominamos. Ficar com músicas na cabeça é normal quando elas logo passam, e não chegam a incomodar muito. Porém, quando elas “martelam” nossa cabeça por dias sem parar, podem se tornar insuportáveis e atrapalhar o sono, o trabalho, o rendimento escolar.

Ao fim do capítulo, o autor cita a audição constante a que somos expostos, como agravantes dessa problemática.

Epilepsia musicogênica

 Outros casos comuns de efeito nocivo são os ataques epiléticos causados pela audição musical.

 Ainda no livro de Oliver Sacks, o autor cita a Epilepsia musicogênica.  Desenvolvida geralmente à partir dos vinte anos de idade, segundo estudos, os indivíduos acometidos pela epilepsia musicogênica eram “interessados em música”, ou seja, a música fazia parte constante das suas vidas.

Os ataques ocorridos pelos indivíduos acometidos pela epilepsia apresentavam formas variadas: alguns caiam inconscientes, mordiam a língua, e outros apresentavam breves ausências, mal notadas pelas pessoas ao redor. Assim também as músicas que desencadeavam os ataques variavam de uma pessoa para outra e poderiam ser desde o rock até músicas clássicas.

Mitos

Quando procuramos saber mais a respeito dos efeitos nocivos da música, frequentemente encontramos artigos que “acusam” certos estilos musicais. O rock é o estilo mais atacado como música maléfica, enquanto a música erudita e o new age são consideradas ideais e benéficas.

Por sua característica “agressiva”, muitos falam que o rock não é uma música adequada ao relaxamento, incita a violência, promove agitação, rebeldia, baixo rendimento escolar e tantas outras influências nocivas ocasionadas por sua audição e outros estilos com características similares (segundo os autores).

Como musicoterapeuta, nunca encontrei nenhuma base sólida que corrobore com essa afirmação. Ao contrário, em uma tese de doutorado apresentada na USP, foi realizada uma pesquisa utilizando-se da música Trilogy do Malmsteen ( famoso por sua "veloz" guitarra)

No estudo, a intenção era expor crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (hiperativos) à música citada e comparar os efeitos com àquelas que não ouviram.

Ao contrário do que muitos poderiam pensar, os movimentos do hiperativo foram menores durante a música e a análise funcional do movimento revelou que o hiperativo olhou o caderno e escreveu mais enquanto ouvia a música do que em silêncio. O estudo concluiu que a música favorece a diminuiçäo da movimentaçäo em sala de aula e a torna mais atenta.

Segundo a pesquisadora, ouvir a música de Malmsteen contribuiu, não para deixar as crianças mais agitadas, mas para diminuir a agitação e colaborar na concentração.

Como vimos acima, não é o estilo da música que exerce influência negativa ou positiva. Nos casos da epilepsia citada acima, muitos pacientes apresentaram ataques ouvindo peças eruditas e músicas “calmas e relaxantes”. Portanto, representa um mito associar de maneira arbitrária os estilos musicais como bons e ruins. 

Especialmente pelo fato de cada indivíduo reagir diferentemente às músicas ouvidas, não é possível formar "receitas" musicais prontas. Assim, o musicoterapeuta é o  profissional preparado para utilizar a terapeuticamente a música de maneira adequada e evitar que em certos casos, a música possa resultar em efeitos iatrogênicos.


Referências

SACKS, Oliver. Alucinações Musicais: Relatos sobre a Música e o Cérebro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SOUZA, Vera Helena Pessôa. Contribuiçöes ao estudo da hiperatividade: determinaçäo de índices para avaliaçäo de comportamento irrequieto e alternativas de tratamento através da música. Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de Säo Paulo para obtenção do grau de Doutor. Säo Paulo; s.n; 1995. 462 p.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Música e Cérebro - Audição Musical





O texto abaixo foi baseado em um artigo de Emmanuel Bigand, professor de psicologia cognitiva, diretor do Laboratório de Estudos de Aprendizagem e do Desenvolvimento, da Universidade de Bourgogne, em Dijon, França.

Estudos já comprovam que aprender a tocar um instrumento reorganiza diversas regiões cerebrais (as áreas motoras, corpo caloso e cerebelo), incluindo aquelas diretamente envolvidas na percepção musical, demonstrando adaptações anatômicas exclusivas aos músicos treinados.  Além disso, o cérebro do músico também sofre ativações mais fortes no hemisfério esquerdo (o da linguagem). As aparências parecem ainda mais significativas em pessoas que começaram a estudar a musica na infância.

Esses trabalhos notáveis esclarecem nossa compreensão sobre a plasticidade cerebral, pois demonstram que o cérebro se reorganiza em conseqüência de um aprendizado intensivo. Contribuem também para compreendermos melhor os aspectos benéficos do exercício musical em outras competências cognitivas (a memória, a resolução de tarefas espaciais).

Todavia, devemos evitar o desejo de associar a qualquer preço as diferenças anatômicas à diferença de aptidão musical, para não correr o risco de ocultar o essencial do que a música pode revelar sobre o funcionamento do cérebro humano.

A audição musical do "Não Músico"

Segundo Emmanuel Bigand as complexas redes neuronais postas em jogo nas atividades musicais se desenvolvem mesmo na ausência de um aprendizado intensivo. Em outras palavras, a simples escuta (e não a prática) basta para tornar o cérebro “músico”.

A idéia de que um cérebro “não-músico” possa ser expert no processamento das estruturas musicais surpreende. Trata-se, no entanto, de uma conclusão apoiada em numerosos estudos feitos sobre a aprendizagem implícita, isto é, aquela de que não temos consciência (contrariamente à explícita, consciente).

Essas pesquisas demonstraram a extraordinária capacidade do cérebro de interiorizar as estruturas complexas do ambiente, mesmo quando só estamos expostos a elas de maneira passiva. Tal aprendizado implícito e inconsciente é fundamental para adaptação e sobrevivência da espécie. Além disso, é observado em todos os domínios e foi adquirido desde cedo no curso da evolução.

Os recém-nascidos passam por aprendizados de grande complexidade, tanto para a linguagem quanto para a música: quando bebês de alguns meses ouvem uma melodia, eles manifestam forte reação de surpresa no momento em que uma nota é substituída por uma outra que infrinja as regras musicais. Os bebês denunciam a própria surpresa sugando o seio mais rápido ou virando a cabeça para o lado de onde vem o som.

 Deduzimos que os circuitos neuronais envolvidos nas atividades musicais se organizam bem antes e independentemente de qualquer aprendizagem explicita da música.

Portanto, indivíduos que não tiveram um estudo musical, podem sim serem tão musicais como um músico profissional. A simples audição desperta e aguça a musicalidade e a percepção, e isso, conforme comprovam os estudos, está presente desde bebês.

Entretanto, audições pobres e limitadas logo são absorvidas e deixam de despertar uma maior amplitude das redes neurais. Então, quanto maior o repertório  oferecido aos nossos ouvidos, tanto melhor.  

Por isso, vamos escutar música!


Para saber mais sobre Música e Cérebro leia:












quinta-feira, 10 de março de 2011

Dom Musical

Mozart, considerado o maior gênio da música


Em nossa cultura remota, é comum comparar o cérebro humano com uma máquina. Assim, fica a cargo da complexa máquina neural o processamento lógico e racional. 

Por outro lado, questões subjetivas como emoção e criatividade ficam armazenadas (no imaginário das pessoas) em um lugar desconhecido, reservado a pessoas especiais possuidoras de um “dom” exclusivo. 

Predomina no senso comum a visão de que o artista é um ser que foi escolhido por uma entidade divina para receber um dom especial, que o distingue do restante dos seres humanos. Idéias como destino, talento inato, predestinação, ligadas a teorias religiosas e à ideologia veiculada pelos meios de comunicação em massa, contribuem para formar nas pessoas a concepção de que um músico, um pintor, um ator já nasceram para realizar aquela atividade e são pessoas “únicas” e “especiais”. 

Assim, acaba-se valorizando o artista e colocando-o em uma posição superior aos demais indivíduos, por realizar atividades tecnicamente difíceis, que proporcionam raro prazer estético ao espectador. Ao considerar execução artística possível somente por alguns “escolhidos”, termina-se, sob outro ângulo, por deslocar o músico, o pintor, o ator do mercado de trabalho “comum”, composto pelas profissões tradicionais, o que gera certa desvalorização do fazer artístico, identificando-o como uma atividade mais recreativa, pouco séria, que exige pouco esforço intelectual de seu praticante, que já teria nascido com habilidades inatas para aquela execução. Tal idéia neutraliza a realidade da formação artística, com as incontáveis horas de estudo e pesquisa às quais este profissional se sujeita. 

Ser músico, nesta visão, muitas vezes não acarreta em reconhecimento profissional. Ainda hoje vejo muitos pais que não aceitam com bom grado quando seus filhos escolhem serem Músicos, em detrimento a outras profissões “tradicionais”. 


A Ideologia do Dom 

A concepção de que pessoas nascem com "talentos" especiais é antiga. O filósofo Platão prega o inatismo, ou seja, as pessoas possuem "dons" inatos:  "há, diremos nós, mulheres que são naturalmente aptas para a medicina e para a música e outras que não o são" (PLATÃO, A REPÚBLICA).
A vinculação da idéia de que a habilidade musical possui um fator genético, prevendo que certos indivíduos nascem com habilidades especiais,  não possui comprovação científica, embora pesquisas sobre música e cérebro,  procuram identificar um gene musical, porém, ainda são inconclusivas.

Ao longo da história, vimos nascerem muitos autores e intérpretes geniais, tais como Mozart, que começou a compor aos 5 anos de idade, e intérpretes fora do comum, como a pequena japonesa Aimi Kobayashi (ver vídeo abaixo). Porém, afirmar a existência do dom, ou se tem ou não se tem, pode limitar e impedir que muitas pessoas possam usufruir de uma carreira artística, ou mesmo de simplesmente aprender um instrumento. Há pessoas que nem sequer tentam aprender música pois acreditam não possuir "Dom".

Em 2008 foi realizada uma pesquisa que analisou a trajetória de  oito músicos brasileiros de destaque: Almeida Prado, Carlos Gomes, Chico Buarque, João Bosco, Magdalena Tagliaferro, Milton Nascimento, Tom Jobim e Villa-Lobos, com o objetivo de comprovar ou refutar a concepção do dom musical inato.

A pesquisa concluiu que o ambiente cultural familiar é decisivo na  escolha e desempenho das carreiras artísticas bem sucedidas. Em algum momento, a música foi inserida no ambiente desses futuros músicos, chamando suas atenções e impulsionando suas carreiras. 

"As reflexões e análises efetuadas no trabalho contribuíram para um entendimento objetivo das condições culturais que dão impulso às carreiras artísticas de músicos populares e eruditos, descartando as hipóteses postuladas pela ideologia do dom e por possíveis teorias que prevejam genes de “predisposição” à música.
Assim, pôde ser notado o fato de que o ambiente cultural influi decisivamente na formação do indivíduo, que, ao ouvir música via discos, rádio ou por meio da interpretação das pessoas que compõem o círculo familiar (pais, irmãos, tios, babás, etc.), é inserido no universo musical, desenvolvendo sua cognição voltada à compreensão do fenômeno artístico, que pode ser, futuramente, tomado como linha diretriz de sua vida." (Parágrafos finais da pesquisa)

Portanto, a questão do dom musical ainda permanece aberta. De um lado a falta de fundamentação científica que comprove sua existência e pesquisas conclusivas que refutam o inatismo. Por outro lado, eventualmente nos deparamos com indivíduos dotados de habilidades tão fora do comum que só podemos chamá-los de gênios.

Veja a pianista japonesa Aimi Kobayashi aos 4 anos de idade:



E você caro leitor, o que pensa sobre o  Dom musical? Deixe sua opinião!



Referências

AMATO, Rita de Cássia Fucci. Capital Cultural versus Dom Inato: questionando sociologicamente a trajetória musical de compositores e intérpretes brasileiros. Opus, Goiânia, v. 14, n. 1, p. 79-97, jun. 2008.








sábado, 12 de fevereiro de 2011

Música e Cérebro




A performance musical representa um grande trabalho para o sistema neural pois envolve  execução precisa e veloz, movimentos motores complexos além dos processos emocionais,  englobando, portanto, não só habilidades motoras, mas também mentais.  

Segundo diversos autores, tais habilidades não são conseqüência de áreas cerebrais isoladas, mas envolvem várias estruturas que se relacionam e interagem entre si. 

A percepção, a produção e o aprendizado musical, envolvem um processo neural complexo e para entender como se dão tais processos, torna-se necessário compreender as bases neuroanatômicas e neurofisiológicas da performance musical.


O processamento cerebral

  Para o norte americano Daniel Levitin (músico, produtor musical, psicólogo cognitivo e neurocientista) o ato de ouvir música começa nas estruturas subcorticais (núcleos cocleares, tronco cerebral e cerebelo) e avança para o córtex auditivo bilateralmente. Acompanhar uma música ou estilo musical familiar aciona outras regiões, como o hipocampo – o centro da memória – e subseções do lobo frontal. Acompanhar o ritmo, marcando com os pés ou apenas mentalmente, mobiliza as redes cerebelares de regulação temporal. 




Já o ato de fazer música, cantando ou tocando algum instrumento – mobiliza também os lobos frontais no planejamento do comportamento, bem como o córtex motor – lobo parietal – e o córtex sensorial, para a percepção tátil, por exemplo, da digitação de um instrumento. A leitura de uma partitura mobiliza o córtex visual – lobo occipital, assim como recordar uma letra ou simplesmente ouvir uma canção envolvem centros da linguagem, como as áreas de Broca e Wernicke, e outras áreas nos lobos: temporal e frontal. Já as emoções despertadas pela música envolvem estruturas do chamado sistema límbico, como a amígdala.

Portanto, a musica é responsável pelo acionamento de inúmeras áreas cerebrais, tornando a audição e a performance musical elementos importantes para o desenvolvimento de  novas conexões neurais.

O vídeo abaixo, ilustra o acionamento cortical de um músico durante a performance musical. Podemos ver nas imagens, como a música "acende" praticamente todas as regiões cerebrais.




Já neste próximo vídeo vemos o acionamento cortical à partir da escuta musical:

          

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