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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei – Filme retrata a gagueira de forma séria




Na 83ª Edição do Oscar, o filme O Discurso do Rei, com 12 indicações, levou 4 das principais estatuetas: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Colin Firth) e Melhor Roteiro Original.

No filme, Firth interpreta “Bertie", apelido familiar do segundo filho do Rei George V da Grã-Bretanha.

Os movimentos do personagem são brilhantemente interpretados por Firth, o qual demonstra com fidelidade todas as aflições vivenciadas por uma pessoa que gagueja e se vê frente ao desafio de enfrentar um pronunciamento público: a face consternada, o andar de quem está prestes a desmaiar, a aceitação passiva da morte nos olhos.

O diretor Tom Hooper conduz a cena de abertura do filme filmando-a a partir da perspectiva opressiva de uma pessoa que vê um humilhante obstáculo onde a grande maioria das pessoas vê apenas palavras corriqueiras. À medida que o personagem de Firth avança lentamente em direção a seu algoz, o microfone, com o ruído apreensivo da multidão ao fundo, sua leal esposa, a futura Rainha Mãe (interpretada por Helena Bonham Carter), oferece apoio incondicional, mas nessa hora não há nada que possa amenizar a extrema solidão de uma pessoa que gagueja.

A sensação de isolamento é irônica, pois tipicamente a dificuldade de comunicação para a pessoa que gagueja é tanto maior quanto maior o número de pessoas à sua volta. A gagueira tende a suavizar quando a pessoa está sozinha, falando para si mesma. Por muito tempo o distúrbio foi considerado um mistério, dando margem a especulações sobre uma possível origem psicológica. Na maioria dos casos, momentos de fala fluente se alternam intermitentemente com repetições, bloqueios e contorções da face. 


Gagueira- Um distúrbio que precisa ser melhor compreendido

A gagueira é um distúrbio neurobiológico causado provavelmente pelo mau funcionamento de áreas do cérebro responsáveis pela automatização da fala: os núcleos da base não conseguiriam ajustar adequadamente o tempo de duração de sons ou sí­labas, gerando alongamentos, bloqueios ou repetições. Esta disfunção é resultado de uma predisposição genética ou de uma alteração na estrutura do próprio cérebro. 

Porém, na maioria dos casos, pais e professores tentam tratar a gagueira apenas como uma pequena dificuldade, não como uma disfunção capaz de alterar completamente a vida de alguém (ainda que, dependendo da severidade, seja exatamente este o tamanho do impacto que ela pode ter). Ainda hoje prevalece a visão da gagueira como algo sem nenhuma gravidade, nenhuma desvantagem, nenhuma deficiência séria. A consequência dessa desinformação é a ausência de qualquer política inclusiva voltada à pessoa que gagueja.

Já que a maioria das crianças que experimentam episódios de bloqueios na fala não se transformam em adultos gagos, há uma suposição de que a gagueira é algo que deve obrigatoriamente ficar para trás, assim como a lancheira da escola. Quando a condição se mostra refratária à remissão, é frequentemente recebida com uma atitude cética e impaciente, como se a pessoa fosse capaz de fazer o problema desaparecer apenas porque seu interlocutor assim o deseja. Para as pessoas que não conseguem tolerar a visão de uma fala levemente fora do padrão, a reação inicial de indagação (por que este pobre garoto não fala direito?) cede lugar a uma reação de intolerância.

Porque a pessoa não gagueja quando canta?

A maior parte das pessoas com gagueira realmente não gagueja quando canta. Entretanto, algumas pessoas com gagueira podem enfrentar dificuldades para iniciar o canto, outras podem gaguejar apenas quando cantam músicas de ritmo quase falado (como o rap, por exemplo) e outras ainda podem gaguejar no canto da mesma forma que gaguejam quando falam. A explicação para a ausência da gagueira durante o canto está em como o cérebro processa esta forma de expressão verbal: processada pelo sistema pré-motor lateral, que tende a estar preservado nas pessoas que gaguejam. Quando a gagueira ocorre durante o canto, significa que o processamento não foi totalmente transferido para o sistema pré-motor lateral ou que também há algum comprometimento neste sistema.

Dependendo do contexto, a fala é processada por diferentes partes do cérebro. As variações situacionais da gagueira - embora possam soar indevidamente como um problema emocional ou de ansiedade social - refletem apenas diferenças no modo como o cérebro processa a fala de acordo com a circunstância, usando um de dois sistemas pré-motores para fazer a temporalização do movimento: o sistema pré-motor medial ou o sistema pré-motor lateral. Na gagueira, o sistema pré-motor medial, responsável pela fala espontânea e integrada pelos núcleos da base, é o que tende a estar comprometido. Por outro lado, o sistema pré-motor lateral, responsável pela fala não-espontânea (como falar sozinho, cantar, ler em coro, representar um personagem e sussurrar) e integrada pelo cerebelo, tende a estar integro. Assim, a melhora da gagueira em situações que não envolvem fala espontânea é esperada e não significa que esta melhora possa ser transferida para a fala espontânea, uma vez que são processamentos distintos.

Tratando a gagueira

Até o momento, não existe nenhum tratamento que realmente cure a gagueira (no sentido de fazer com que a gagueira desapareça completamente sem que o indivíduo precise tomar nenhum cuidado adicional com sua fala). Os tratamentos disponíveis promovem uma diminuição significativa da gagueira, mas poderão persistir alguns resquícios, mesmo que sutis. 

Porém, apesar de não existir uma cura, a Fonoaudiologia e algumas especialidades médicas dispõem de técnicas e procedimentos específicos para tratar a gagueira. A Musicoterapia, embora ainda no início dos estudos e pesquisas, também tem sido utilizada como uma forma eficaz de tratamento para a gagueira.

No filme, Geoffrey Rush interpreta Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano conhecido por seus métodos pouco convencionais – o tipo de terapeuta que membros da realeza dificilmente consultariam.

Lionel precisou ganhar a confiança de Bertie (como príncipe e depois como rei). Para fazer isso, ele teve de estabelecer uma relação de igualdade entre eles. E essa não foi uma tarefa simples, já que a confiança de um rei não é algo que se consegue obter de modo fácil ou rápido, ainda mais quando está sendo exigida a remoção da hierarquia. Este foi um teste crucial para a habilidade terapêutica de Lionel.

George VI manteve a amizade com seu tutor e terapeuta Lionel Logue até fim de sua vida (ele morreu de câncer no pulmão em 1952; Logue morreu no ano seguinte). O rei buscava sua ajuda sempre que precisava fazer pronunciamentos públicos e, em 1937, concedeu a Logue o título de nobreza da Ordem Real Vitoriana, que reconhece serviços prestados à monarquia. Diante da história de sucesso da parceria entre os dois, muitos ficam tentados a pensar que o rei superou completamente a gagueira, muito embora a verdade seja um tanto diferente.


Assista o trailer legendado 







Aqui, nestes dois pequenos trechos, o verdadeiro George VI demonstra sua dificuldade em falar em público:






Para ler a resenha completa do filme, sob o olhar de uma pessoa que gagueja, acesse o site do Instituto Brasileiro de Fluência: http://www.gagueira.org.br


Referências:


Trechos da resenha do filme " O Discurso do Rei". Por Hugo Silva. Instituto Brasileiro de Fluência. 

Vinte e Três Mitos sobre a gagueira. Por Sandra Merlo e Hugo Silva. Instituto Brasileiro de Fluência. 

4 comentários:

Edison Junior disse...

Ainda não assisti ao filme, mas certamente o farei agora com mais interesse. Ótimo e oportuno post.

Melina Charlila disse...

Apesar de a gagueira ser um problema apenas neurológico, provavelmente o fato de uma pessoa apresentar este distúrbio pode lhe causar problemas psicológicos/emocionais também, em que acredito que nós musicoterapuetas também podemos ajudá-lo. Bjo! Parabéns pelos textos!

Música e Saúde disse...

Caro, Edison
Depois que assistir o filme,volte e nos diga o que achou!

Melina, ótima colocação!
A musicoterapia pode ajudar não só minimizando a gagueira em si, mas também, e digo até especialmente, tratar das consequencias de caráter emocional e psicológico do indivíduo.

Agradeço os comentários, Abçs! Flávia

Michele Rodrigues disse...

Olá Flavinha, parabéns pelo blog!
Se tiver algum texto sobre musicoterapia e gagueira gostaria de conhecer.
Bjo
Michele

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