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sábado, 5 de novembro de 2011

Filosofia e Música





Na postagem de hoje, veremos um trecho da entrevista que o filósofo Vladimir Safatle  concede à revista Psique n. 70, no qual fala sobre a Filosofia da Música.

Professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Vladimir Safatle é autor de obras como Fetichismo: colonizar o Outro, Cinismo e falência da crítica, Lacan e A paixão do negativo: Lacan e a dialética. O pensador desenvolve reconhecido trabalho em diversos campos, que vão da epistemologia da Psicanálise à Filosofia da Música.


Entrevista
Por Fernando Savaglia

Outra área de seu interesse é a música. Uma de suas abordagens diz respeito a traçar uma relação entre música e política?
Safatle - As reflexões formais das obras de arte têm um forte papel indutor  na nossa concepção dentro da vida política. Uma forma musical é um sistema de decisões de uma série de variáveis, por exemplo, sobre a racionalidade ou irracionalidade; quando você decide o que é som e o que é ruído; decisão sobre organização do tempo,  espaço, identidade, diferenças. Estabelece-se isso a partir de dissonâncias e consonâncias, o que é uma contingência, desenvolvimento, acontecimento. Todos esses conceitos, unidade, síntese, ordem, diferença, não só conceitos estéticos, mas  políticos também; eles organizam nossa maneira de pensar politicamente. As obras são políticas, não quando têm temas políticos, aí elas não são nem obra de arte, mas peças de propaganda. Elas têm força política quando falam delas mesmas, de suas formas; aí desenvolvem outra ordem possível, de outro modo possível de estruturação, de outro modo possível de visibilidade.

A seu ver, a música seria uma ferramenta capaz de provocar no homem um sentimento de reencontro com a espiritualidade?
Safatle - Existe uma mitologia musical muito forte, que vem principalmente do romantismo alemão, no que diz respeito à música como veículo privilegiado da manifestação do sublime. O sublime seria uma ideia da  razão inadequada a toda representação. É comum se apontar a música como tal, pois ela é uma linguagem sem representação, isto é, sem vínculo com a linguagem ordinária. Se pegarmos um trecho de uma sinfonia de Schubert, por exemplo, como podemos definir que sentimento é aquele? É contemplação? Paz? Tristeza? Melancolia? Esse caráter indeterminado da música era visto não como uma carência da linguagem, mas como uma força, isto é, ela está para além de toda e qualquer linguagem, que se assenta sobre uma representação. Daí a ideia da experiência do sublime. Não desconsidero esta experiência do ponto de vista pessoal de cada um. Por outro lado, não tenho muito a dizer, porque não é minha experiencia.

É possível, então, afirmar que outras formas de composição fora do universo tradicional da música tonal, como o atonalismo, música eletroacústica e a música serial, refletem uma maneira filosófica peculiar de seus respectivos compositores de estar no mundo?
Safatle - Acho, antes de tudo, que é um desenvolvimento interno da própria linguagem musical.Que isso tenha consequências mais amplas para a forma de pensar de uma época é natural. A música sempre teve essa capacidade. Ela tem uma contradição, que é ser vista ao mesmo tempo como a mais intuitiva e a mais racional das artes. Dependendo de onde você está, você pode ter duas visões diferentes. Em alguns momentos, ela nos parece a mais próxima expressão imediata do eu e, em outros, ela pode se parecer como um quebra-cabeça intelectual. O fato é que a história das formas musicais é um setor da história da razão. Impossível entender como essas formas vão se modificando na mesma época. É um equívoco de certas correntes filosóficas não entender que a estética é um setor da história da razão.

Em sua opinião, porque o dodecafonismo ou o atonalismo causam certo desconforto em muitos ouvintes? É um fato cultural ou inato?
Safatle - O compositor Steve Reich diz que todo  pensamento é tonal. Não existe tradição no mundo que não tenha pulsação regular e centro tonal. Na minha visão, diria que nossa vida social é tonal, no sentido que ela tende a se organizar como uma sonata que compartilha dessa imagem que existe, um modo de desenvolvimento, um modo de organização, enfim, toda uma narrativa que se organiza mito própria do sistema tonal. Existem tensões latentes da vida social que as obras de arte podem expor de maneira manifesta. Muitas vezes elas são os únicos espaços onde isto pode ser posto. Nesse sentido, elas têm uma função política muito importante.

Como vê a relação do Brasil com sua música?
Safatle - Existe algo estranho no sistema cultural brasileiro, que é a ideia de que vivemos num país eminentemente musical, sendo que a música brota da terra. Ela,a música, não precisa ser pensada e seria a prova maior de nossa imanência com o gozo solar, absolutamente presente, e que é exalada dos poros de todo e qualquer cidadão nascido neste país. Essa imagem ideológica, profundamente arraigada em nós, acabou nos fazendo incapaz de pensar música. Mesmo Villa-Lobos, nosso maior compositor, se justificava com esse argumento, dizendo que a música vinha com a catarata, com a natureza, etc. É  um discurso ideológico que diz respeito muito mais ao como gostaríamos de sermos vistos do que realmente aquilo que a música é.


Referências:

SAVAGLIA, Fernando. Entrevista: Vladimir Safatle - Entre Lacan e Adorno. Revista Ciência e Vida: Psique. São Paulo: Editora Escala, Ano VI. n. 70. p. 06-11, 2011.

Foto: Ralph Baiker.

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