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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Um olhar musicoterapêutico sobre o texto O som e o símbolo de Victor Zuckerkandl

                                                                                                                  Por Flávia B. Nogueira

Zuckerkandl, em seu livro “O som e o símbolo”, apresenta a estrutura musical sob uma análise que transcende os escritos da literatura sobre teoria musical. O autor mostra o potencial de elementos como “A nota”, “A melodia”, “A dinâmica”, e tantos mais.
No primeiro capítulo, Zuckerkandl aborda os quatro campos do conhecimento que estudam e apresentam concepções prontas a respeito de tais elementos: A teoria musical, a acústica, a psicologia da música, e a estética. Após analisar cada campo, o autor não chega a uma conclusão, sobre afinal, qual é o lugar da música:

“[...] se a música não tem seu próprio lugar no mundo exterior, o qual o físico investiga, nem ainda no mundo interior, o qual é a matéria tema do psicólogo, onde ela tem seu lugar? Este é o verdadeiro problema” (ZUCKERKANDL).

No decorrer do texto, vimos que fechar conceitos acerca do que é música, não é uma tarefa fácil, tanto quanto é inútil. A música e seus elementos constitutivos estão tão carregados de significados, que qualquer definição pré concebida a torna limitada e estática, em detrimento ao movimento.
Assim, uma nota musical, dentro de uma melodia, ganha sentido de palavras, de sentenças, ou seja, elas passam a expressar uma significação. Entretanto, dependendo do lugar ocupado por essa nota, o sentido expresso pode ser completamente modificado.
A comunicação expressa por uma melodia baseia-se em padrões especialmente culturais. Esses padrões, segundo Jourdan, é a razão da música se tornar compreensível e dotada de sentido:

Quando um cérebro é capaz de modelar um padrão, surge a sensação significativa. Quando um cérebro não está à altura da tarefa, nada ocorre e a experiência que um animal tem do mundo é, com isso bem menor que a nossa. JOURDAIN, p.23 

Entre os padrões conhecidos de maneira praticamente universal, está a tonalidade. Nossos ouvidos se identificam sobremaneira ao padrão tonal, que mesmo uma pessoa que não estude música, percebe, por exemplo, o sentido de continuidade e finalização de uma melodia.
Pensando no potencial terapêutico que as melodias expressam, podemos pensar nos conceitos de tensão e relaxamento, perguntas e respostas.

A nota dá a impressão de apontar para além dela mesma para libertar-se da tensão e restaurar o equilíbrio; ela dá a impressão de olhar em uma direção definida pelo evento que provocará esta mudança; ela parece ainda pedir pelo evento. É claro que uma nota assim não pode ser usada como a nota conclusiva de uma melodia (ZUCKERKANDL).

A melodia é reveladora. Ela pode articular sentimentos sem ficar vinculada a ele.  A música deve, além de estimular os sentimentos, deve expressá-los, e neste sentido, a força da dinâmica melódica impulsiona uma resolução, ou não.
Durante uma experiência de improvisação no setting musicoterapêutico, a força das notas, dentro de um contexto melódico, podem dizer muito.
Para Willems (1969) a melodia sempre será o elemento mais característico da música e em determinadas culturas é o elemento central. Para o autor, melodia é a sucessão temporal de sons e silêncios e, psicologicamente ela é absolutamente conectada a nossa consciência afetiva. Seu princípio fundamental é a mudança de entonação ascendente e descendente dos sons sucessivos e, esta organização pode produzir um resultado musical compreensível e incompreensível, de prazer e desprazer, de tensão e relaxamento, atribuído a consonância e a dissonância (WILLEMS, 1969, p 21).
A noção de consonância e dissonância dá a impressão de relações próximas e distantes. A consonância  é a relação mais próxima e simples com o som fundamental, e a dissonância  a relação mais afastada e complexa. "O que é hoje é distante, amanhã pode ser próximo; é apenas uma questão de capacidade de aproximar-se” (SCHOENBERG, 2001 pág.59).
No XIII Simpósio de Musicoterapia, Barcellos apresentou a Técnica Provocativa Musical - que consiste na execução de trecho sonoro, rítmico, melódico ou harmônico, uma música ou letra de canção que se apresenta incompleta (BARCELLOS, 2009). Nessa técnica, Barcellos apresenta um trecho musical incompleto que convoca o paciente a completá-la, desafiando-o a uma resolução.
O trecho melódico é compreendido como uma narrativa, uma idéia, uma exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos reais ou imaginários que o indivíduo é convidado a finalizar. O desafio da conclusão, impulsionado pela força dinâmica da nota, possibilita a organização. Tal organização não se limita ao fazer musical, ele é extensivo à vida cotidiana do sujeito.
Assim como na vida temos momentos de tensão e repouso, perguntas e respostas, conflitos e resoluções, vêem-se nas estruturas musicais certas semelhanças a padrões dinâmicos da experiência humana.
Além disso, a melodia e as notas que a constituem dão a idéia de movimento.

“Seja lá o que a música possa ser, uma coisa ela deve ser: movimento... Falar de movimento faz sentido somente quando algo que está presente se move. O que é aquilo que se move numa melodia? Será respondido: a nota” (ZUCKERKANDL).

 A vida é movimento, e mesmo que ajam repetições, há sempre a possibilidade do novo arranjo, da mudança, da variação, da surpresa. Portanto, o fazer musical em musicoterapia possibilita ao sujeito vivenciar, sem o uso da palavra, sentimentos de satisfação e equilíbrio, alcançando a partir da auto realização, mecanismos capazes de resolver suas dúvidas, tensões e angústias.


 BIBLIOGRAFIA

BARCELLOS, Lia Rejane. Sobre a técnica provocativa musical em musicoterapia. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE MUSICOTERAPIA, 13, 2009, Curitiba, Anais. Curitiba: Griffin, 2009. p. 103 a 109.
JOURDAIN, Robert. Música, Cérebro e Êxtase. Rio de Janeiro: Objetiva. 1998.
SCHOENBERG, Arnold. Harmonia. São Paulo: Unesp, 2001
WILLEMS, Edgar. Las Bases Psicológicas De La Educación Musical. Buenos Aires: Editorial Universitária de Buenos Aires, 1969.
ZUCKERKANDL Victor.  Sound and symbol: music and the external world.  Princeton, NJ, PUP, 1956.




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